Tributo ao Pai

Foto de Rudy Trindade
É, faz tempo.
Parece que foi ontem…
- É menino, é um garotão!
Você não se conteve.
Charuto, abraço, lágrima
Silêncio
Você era finalmente pai.
Das paredes azuis
Ao bolo de 1 ano
A primeira palavra:
Ma-mãe.
Você não se importava
Não tinha dúvidas
A segunda certamente seria…
Vo-vó.
Surgiram os primeiro passos
O primeiro chute
Fui goleiro, artilheiro
Astronauta e lutador de boxe
Como toda criança
Fui alpinista de estrelas
E enquanto você foi a corda
Eu fui acordando.
Do banco de trás
Eu fui aprendendo a pedir:
Biscoito, bala … o volante!
O volante? Sim, eu já posso fazer isso!
Foi um pulo.
O sapato apertando, o dente caindo
A canela esticando…
Será que você viu?
(A cortina de sua pálpebra não paralisa o tempo.)
Não viu.
E quando viu
Eu era um lugar na mesa
Um quarto vazio
E uma sirene de escola que nunca cessa.
Mas hoje estamos aqui
Diante do imenso quarto azul
Que você me ensinou a conhecer
Diante de estrelas infinitas
Escondidas por trás de sonhos
Que você me fez acreditar
Possíveis.
Obrigado, meu pai.
Texto originalmente publicado no blog Caneta, Lente e Pincel.
25 Abril, 2009 às 9:13 pm
Essa semana meu pai dominou a minha vida e os meus pensamentos. Desde segunda-feira, relembrei vários momentos das nossas vidas. Ainda não sei se conseguirei escrever sobre isso, mas ler esse post foi como se eu mesma estivesse dizendo isso pra ele… O que me deixa mais feliz é saber que eu ainda posso fazer isso, quero aproveitar esse tempo.
26 Abril, 2009 às 1:27 pm
Que bonito!!! Especialmente “A cortina de sua pálpebra não paralisa o tempo”
Parabéns pela sensibilidade… Lembrei do meu paizinho, que está longe…
27 Abril, 2009 às 4:05 pm
Ô David, que lindo!
Eu tenho a benção de ainda ter o meu pai comigo e se a genética não falhar – e não vai! – ainda o terei por muito tempo( a mãe dele se foi aos 102 anos!).
E se temos a sensibilidade e as palavras certas para homenageá-los, felizes de nós. E você foi isso e mais um tanto! Parabéns!
28 Abril, 2009 às 5:02 pm
Já falei o que eu achei sobre esse poema. Na verdade, acho que o simples não falar nada (depois de tê-lo ouvido) explicaria muita coisa. Saudade de você poeta (sem vírgula mesmo).
29 Abril, 2009 às 9:07 am
A foto diz tudo, e o poema dá mais sentido ainda ao sentimento que ela transmite. Lembrou direto o meu pai, que já se foi, mas antes me fez acreditar nas “estrelas infinitas escondidas por trás de sonhos”. ;o))
2 Maio, 2009 às 1:18 pm
David,
Gostaria de parabenizá-lo pela sensibilidade. Você consegue nos fazer sentir a essência do perfume da vida. Seu poema toca. Arrepia. Emociona. Sim, devemos render homenagens ao nosso pai que tanto nos ensinou e nos “fez acreditar possíveis” os nossos sonhos. Que nos tornou quem somos. O que acreditamos.
3 Maio, 2009 às 12:10 pm
“Fui alpinista de estrelas”. Agora que reparei…
Já imaginou daqui a alguns anos, você famoso, criancinhas nas escolas e adolescentes no ensino médio lendo e interpretando seus poemas e alguém tentando explicar esse verso?
Ia ser engraçado…