“Um índio descerá de uma estrela colorida e brilhante…”
- Não é possível, isso só pode ser mais uma das suas brincadeiras…
- Não, não é brincadeira. Você não imagina o quanto é difícil ter que conversar sobre esse tipo de assunto com você…
- Quero saber os detalhes… Onde você conheceu esse índio?
- O que importa isso agora? Você só precisa saber que estou apaixonada e…
- Apaixonada? Você se apaixonou por um silvícola?!
- Me apaixonei sim, qual o problema?
- Você só pode estar enlouquecendo… só falta me dizer que conheceu o tal índio num shopping center enquanto ele comprava um cocar na Emporio Armani. Ou será que foi num cursinho de tupi pela internet?
- Você e seus deboches, continua o mesmo imaturo…
- Eu imaturo? Você não imagina do que sou capaz!
- Não adianta você fazer mais nada, já estou decidida. Vou arrumar as minhas coisas…
- Para que você quer as suas coisas? Pensei que você agora fosse andar só de tanguinha e pintar o resto do corpo com urucum…
- Deixa de ser cínico, nosso casamento sempre foi um fracasso!
- Você ainda não me disse aonde conheceu esse maldito índio! Vou escrever uma carta hoje mesmo para o presidente da FUNAI denunciando esse ser primitivo destruidor de lares! Ele abusou sexualmente de você? Você está sendo coagida?
- Pára de palhaçada! Eu no seu lugar não me meteria com ele… Para o seu governo, ele tem o dobro do seu tamanho.
- Era só o que me faltava… daqui a pouco você vai tentar me convencer de que o nativo que você arranjou tem um arsenal bélico dentro da oca: um tacape, uma zarabatana e um arco e flechas… não seja ridícula, nós estamos no Rio de Janeiro minha querida…
- E outra coisa: Ele também tem mais dinheiro do que você!
- Como assim tem mais dinheiro? Ele é descendente de Araribóia? Ele é o cacique da tribo em que você vai morar? Você continua a mesma interesseira… Bem, eu sempre fui contra essas políticas rondonistas do governo de deixar terra pra índio… E o que é pior, não pagam um centavo de imposto!
- Já chega! Não agüento mais ouvir esse bando de bobagens!
- Vocês já conversaram com o Pajé? Já pediram as bênçãos de Tupã para selar essa união adúltera? Tomara que ele mande um raio bem na sua cabeça!
- Acho que a sua cabeça está mais propensa ao recebimento de raios…
- Descarada…Você não vai me contar mesmo onde encontrou esse maldito aborígine?
- Você tem mesmo certeza de que quer saber isso?
- Claro! Não quero ser poupado de nada, não quero que sinta pena de mim!
- Então tá bom, depois não diz que eu não avisei. Conheci o Índio na praia.
- Na praia? Como assim na praia? Não vá me dizer que descobriram um cemitério indígena no calçadão de Copacabana e eles montaram um acampamento na orla junto com os sem-terra?
- Nada disso! Ele joga futevôlei na rede que fica em frente ao nosso condomínio. Mas o meu índio não é desse tipo que você está imaginando não. A pele dele é vermelha sim, mas é por causa do sol que ele pega todo dia. E a única “tanguinha” que ele usa é uma sunga vermelha que deixa o corpo sarado dele todo a mostra…
- Então quer dizer que o tal índio de índio não tem nada?
- Tem sim! Ele tem uma tatuagem tribal no braço que deixa a mulherada aqui do bairro enlouquecida!
- Sua idiota, tatuagem tribal não tem nada a ver com índio! Aliás, uma coisa ainda me intriga nesse seu romance. Se esse indolente fica o dia inteiro na praia, como ele pode ganhar mais dinheiro do que eu, que me mato de trabalhar o dia inteiro naquele escritório?
- Simples. Ele é filho do seu chefe.
- Eu mato você sua desgraçada!