Hoje recebi por e-mail mais uma prova do quanto foi vilipendiado, sobretudo nos últimos 30 anos, o patrimônio histórico e cultural da cidade do Rio de Janeiro. Neste post, que é uma espécie de resumo do e-mail que recebi, vocês terão uma pequena demonstração (pequena mesmo) da beleza e do glamour de nossos antigos cinemas, muitos deles já demolidos. Certamente alguns dirão que os atuais shopping centers, onde hoje fica a maior parte dos cinemas, dispõem de uma série de outros serviços, como estacionamento amplo, segurança particular e praça de alimentação, o que não existia na época dos cinemas de rua. Entretanto, se não fôssemos tão negligentes com a memória de nossa cidade, poderíamos ainda hoje nos deleitar com o clima parisiense que ostentava o Rio de Janeiro até meados do século XX. Basta clicar em cima das fotos para visualizar melhor os detalhes e facilitar a leitura dos textos. Sejam bem vindos a mais uma viagem pelos tempos de glória da finada capital da república.
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Praça dos Expedicionários
Postado em História em 18 Outubro, 2008 por David CohenVocês já devem ter percebido que eu sou um apaixonado pelo Rio Antigo e um entusiasta ferrenho da preservação do patrimônio histórico e cultural da cidade.
Essa notícia eu preciso compartilhar com vocês. Vocês já ouviram falar na Praça dos Expedicionários? Se a resposta de vocês é “não”, confesso que eu também não sabia que era esse o nome da praça abandonada que fica ao lado do Tribunal de Justiça, na Avenida Antônio Carlos, no Centro.
A região da Praça dos Expedicionários é considerada o berço do Rio porque a ocupação da cidade começou no Morro do Castelo, que ali ficava. No Morro do Castelo foram construídas as primitivas Casa da Câmara e a da Cadeia, a Casa do Governador, os Armazéns, e também as Igreja dos Jesuítas e a Igreja de São Sebastião, onde foi instalada a primeira Sé Catedral da cidade, e junto a qual estava o Marco da Fundação, trazido do primitivo estabelecimento no sopé do Morro Cara de Cão, assim como os restos mortais do fundador, Estácio de Sá.
O Morro do Castelo foi destruído em 1922 por determinação do então prefeito Carlos Sampaio. Foram muitas as justificativas apresentadas, entre elas a falta de espaço para abrigar a exposição comemorativa do centenário da Independência e um suposto prejuízo à ventilação da área central da cidade. Assim, com jatos d’água (acreditem!), motores elétricos e máquinas a vapor, o Morro do Castelo foi sendo demolido.
Mas então, eu falava da Praça dos Expedicionários. Foi encaminhado à Câmara de Vereadores um projeto de lei de iniciativa do prefeito César Maia (que já sai tarde!) propondo a modificação urbanística do entorno da Praça dos Expedicionários. No popular, o prefeito quer destruir a praça, e o seu objetivo é a construção naquele lugar de um estacionamento e dois edifícios.
Como é de costume, abandona-se o patrimônio público com o propósito deliberado de desvalorizá-lo, transformá-lo em “elefante branco” para depois “vender” a idéia para a população de que é necessário remodelar o local. Eu me arrepio todo quando ouço a palavra “remodelar”. Remodelar, no dicionário dos nossos governantes, significa passar literalmente um trator por cima da história, soterrar o passado e seus personagens, impor o esquecimento a golpes de picareta. Aliás, o que não faltam por aqui são golpes de picareta…
É tentar corrigir um erro com outro. O Morro do Castelo jamais poderia ter sido destruído e compete aos moradores da cidade envidar todos os esforços possíveis para que a Praça dos Expedicionários – onde também fica o garboso monumento ao Barão do Rio Branco – não siga o mesmo caminho.
Nossa cidade agoniza, mas não seremos nós que vamos desligar os aparelhos.
Catacumba: A favela que virou parque
Postado em História em 13 Outubro, 2008 por David CohenQuem passa atualmente pela Lagoa, um dos bairros de maior valorização imobiliária do Rio de Janeiro, e admira o Parque da Catacumba não imagina – ou não se lembra – que ali existia uma favela.
Segundo arquivos da Biblioteca do Serviço Social do Município do Rio de Janeiro, o terreno onde existia a Catacumba foi ocupado por uma chácara durante todo século XIX. Sua antiga proprietária, a Baronesa da Lagoa Rodrigo de Freitas, transferiu a posse das terras para seus escravos.
Mas a explicação do nome Catacumba tem origem em tempos ainda mais remotos. Segundo os antigos moradores da favela, o local foi usado pelos índios como cemitério. No entanto, nunca houve confirmação sobre possíveis esqueletos encontrados na região.
Por volta de 1925, o Estado dividiu a Chácara das Catacumbas em 32 lotes. Os primeiros barracos da futura favela começaram a ser erguidos ainda nos anos 30. Mas a explosão demográfica só aconteceu mesmo na década de 40, com a chegada de uma leva de migrantes vindos, principalmente, do estado do Maranhão.
Em 7 de agosto de 1967, o Jornal do Brasil descreveu assim o cotidiano na favela:
“Às cinco horas da manhã, a Catacumba começa a despejar seus moradores. Copeiras, cozinheiras e babás descem as escadarias, saindo para as ‘casas das madames’. Trabalhadores (grande número de operários em construção) formam filas nos dois pontos de ônibus ou caminham a pé, em direção de Copacabana, Ipanema e Leblon. Um pouco mais tarde, o pessoal que desce o morro já tem outro aspecto: é a hora dos funcionários públicos, das crianças que vão para a escola e da grande movimentação das lavadeiras, que saem de casa cedo, para aproveitar o sol fraco da manhã, para a lavagem e, depois, o sol mais forte, para secar a roupa”.
A Favela da Catacumba foi removida em 1970 pelo antigo governador da Guanabara, Negrão de Lima. A Catacumba era uma favela sem nenhum modo de ser urbanizada e num local de alto risco de desabamentos. Junto com as outras favelas do entorno da Lagoa (da Praia do Pinto, da Macedo Sobrinho e da Ilha das Dragas, todas extintas), a Catacumba contribuía com o esgoto in natura que era despejado direto na Lagoa Rodrigo de Freitas. A comunidade tinha 2.320 barracos (a maioria de madeira) e cerca de 15 mil habitantes. Não existia serviço de água potável na comunidade. Para 89% dos moradores, o dia começava cedo nas 15 bicas públicas que existiam já perto do asfalto.
A maioria das famílias da Catacumba foi transferida para o Conjunto Guaporé-Quitungo, construído pela COHAB na Penha, enquanto outras foram removidas para a Cidade de Deus e Parques Proletários do Estado.
O Parque da Catacumba é hoje o mais importante parque de esculturas ao ar livre existente na cidade do Rio de Janeiro.
Na cidade em que palácio virou chafariz, pelo menos a favela virou um belo parque.







