Ligações perigosas
Posted in Crônicas on 20 Janeiro, 2009 by David Cohen
- Alô.
- Oi querida.
- Que voz é essa?
- A minha, ora.
- Eu me refiro ao tom da sua voz.
- Não gostou do tom?
- Parece sombrio…
- Você acha?
- Acho. Aconteceu alguma coisa?
- Você sabe…
- Sei?
- Querida, não se faça de desentendida.
- Quando você me chama de “querida”…
- Tá bom, não te chamo de querida.
- Mas afinal, o que é que eu sei que você não quer me falar?
- Então você confessa que sabe?
- Confessar o que? Você está me deixando confusa…
- Eu sempre confiei em você, sempre te dei toda a liberdade do mundo.
- Mais ou menos… às vezes você é meio autoritário.
- Eu autoritário?
- É!
- Você está tentando desviar o assunto…
- Mas que assunto?
- Eu jamais esperava isso de você.
- Agora você está me deixando nervosa.
- Por que nervosa? Quem não deve não teme…
- Eu não devo nada!
- Tem certeza?
- Claro que tenho!
- Depois de tanto tempo junto…
- Deixa de ser exagerado, seis meses nem é tanto tempo assim.
- Como assim seis meses?
- Ué, nós namoramos há seis meses, esqueceu? Tudo bem que a gente saiu algumas vezes antes, mas foi sem compromisso, não conta.
- Acho que está havendo algum engano.
- Como assim, engano? Você anda bebendo, Adalberto?
- Meu nome não é Adalberto.
- Humm… Que número o senhor discou?
- 3529-4463.
- Poxa, caiu errado, aqui é 4436.
- Me desculpe. Felicidades com o Adalberto.
- E você tenha mais paciência com a sua….
- Esposa.
- Isso, esposa. E quando quiser conversar com uma amiga, desabafar, não se esqueça, o meu é 4436! Anotou? 4436!
***
- Que voz… eu tinha certeza que não era o Adalberto!
Carta de recomendação
Posted in Crônicas on 19 Janeiro, 2009 by David Cohen- Alô.
- Bom dia, eu poderia falar com o Ricardo?
- É ele, quem deseja?
- Ricardo, meu nome é Gustavo, eu sou…
- É engano, eu não conheço nenhum Gustavo, passar bem.
- ….
- Alô.
- Ricado?
- Você de novo?
- Calma, não desliga! Eu sou…
- Operador de telemarketing da VIVO! Desculpa, meu amigo, meu celular é da concorrente e estou muito satisfeito com o serviço.
- De onde você tirou isso? Quem disse que eu…
- Se for me oferecer assinatura do O GLOBO nem perca seu tempo!
- Você vai deixar eu falar?
- Você já não está falando? Aliás, eu nem te conheço e já nos falamos duas vezes em menos de 5 minutos!
- Ricardo, quem me deu seu telefone foi a Cláudia, você é ex-namorado dela, não é isso?
- Por que a Claudinha iria te dar meu telefone? Nem precisa falar, já sei! Ela está fazendo mais um crediário e deu meu telefone como referência…
- Mais um crediário? Você está dizendo que a Cláudia, quer dizer, Dona Cláudia, é “gastadeira”?
- Xiii… você nem imagina. Gasta um fortuna em roupas, sapatos, salão de beleza, academia… Às vezes ela se enrola na hora de pagar, mas vocês não precisam se preocupar com isso, a família dela tem posses.
- Ela devia fazer isso para ficar bonita para você, deve ser vaidosa.
- Vaidosa ela é mesmo. Vaidosa, arrogante, prepotente… mas isso ela herdou da mãe, aquela jararaca!
- A mãe dela é uma jararaca?
- Claro! Aquela velha turrona tem a cabeça mais dura que uma parede de concreto, não dá o braço a torcer por nada. Meu ex-sogro sofre na mão dela.
- Mas apesar de tudo ela é uma pessoa confiável, não é?
- Mais ou menos… essa safada, me desculpe a má palavra, me traiu duas vezes, nem sei como não terminamos naquela época. Por amor a gente engole cada sapo… Mas afinal, de que empresa você é?
- Eu?
- Não me diga que…
- ….
- Alô?
- Cláudia, é o Gustavo, precisamos conversar.
- O que houve Gugu? Aconteceu alguma coisa?
- Prefiro falar pessoalmente.
- Você ligou para o Ricardo? Tenho certeza que ele falou bem de mim, não foi?
- Não consegui falar com ele. Ele deve ter mudado de telefone.
- Que pena… Eu e o Ricardo ficamos muito amigos depois que terminamos. Tenho certeza que ele tiraria todas essas dúvidas que você colocou na cabeça a meu respeito.
Foi nesse encontro que Cláudia e Gustavo sacramentaram o término da relação. Daquele dia em diante, Gustavo nunca mais pediu “carta de recomendação” para suas namoradas.
A paz como arma de guerra
Posted in Uncategorized on 17 Janeiro, 2009 by David CohenPor Olavo de Carvalho
Enquanto Hugo Chávez expulsa o embaixador de Israel e no Brasil o PT compara os israelenses aos nazistas, na Flórida a militância esquerdista sai às ruas e grita: “Judeus, voltem para o forno”.
Está aberta a temporada de caça.
Ninguém parece julgar isso de todo mau. Como é possível que, decorrido pouco mais de meio século do Holocausto, o ódio aos judeus vá aos poucos se incorporando novamente ao senso comum, como se fosse coisa decente, obrigatória, e dele dependessem as melhores esperanças de paz e liberdade para a espécie humana?
A resposta é simples: controle o fluxo de informações e terá o domínio absoluto das conclusões que o público vai tirar delas. Uma das regras mais elementares da ciência histórica é: a difusão dos fatos causa novos fatos. O fato desconhecido não gera efeitos. Se a maioria das distribuidoras de vídeos não tivesse bloqueado o acesso dos espectadores ao documentário Obsession (www.obsessionthemovie.com), se o vídeo www.israelnationalnews.com/News/News.aspx/129264 fosse exibido às massas, se no mínimo o direito de chorar seus mortos no horário nobre da TV não fosse um monopólio dos esquerdistas e terroristas, ninguém diria que a reação de Israel foi excessiva: todos entenderiam que foi justa, racional e tardia.
Para que esse desastre não aconteça, é preciso garantir que cada judeu explodido pelas bombas do Hamas seja enterrado duas vezes: uma no solo, outra no desconhecimento geral. Assim todo mundo fica com a impressão de que os judeus não estão defendendo a própria pele, apenas arrancando a de seus inimigos.
Também seria ingenuidade acreditar que o abismo crescente entre noticiário e realidade é o efeito espontâneo de um simples viés ideológico, de preferências subjetivas da classe jornalística.
Só para fins de comparação: as Farc, segundo se descobriu no famoso laptop de Raul Reyes, não são um bando de psicóticos enfurnados na selva – são uma organização mundial, com uma rica e eficiente rede de apoio em 29 países. Mutatis mutandis, quantos colaboradores têm o Hamas e o Hezbollah no Brasil, nos demais países da América Latina, nos EUA e na Europa? Quantos deles são agentes de influência colocados em postos decisivos das empresas jornalísticas para dar a impressão de que é normal chamar os judeus de nazistas e no mesmo ato sugerir enviá-los de volta aos campos de concentração? Ninguém vai jamais investigar isso em profundidade, dar nomes, responsabilizar criminalmente os desgraçados? Até quando a mídia continuará sendo a principal arma de guerra assimétrica e posando de observadora neutra, no máximo um tanto preconceituosa?
Claro, existem sempre os idiotas úteis, que repetem o que ouvem dizer. Mas a idiotice em estado bruto é inerme. Para tornar-se útil ela tem de sofrer um upgrade. Não se pode explicar um preconceito geral pela simples propagação automática, sem que alguém tenha deslanchado o processo. E quem o deslanchou sabe exatamente aonde pretende chegar com ele.
Lênin já explicava que o terrorismo não é jamais um objetivo em si mesmo, que suas finalidades só se cumprem quando os ataques cessam e as conquistas obtidas são sacramentadas na mesa das negociações. A transição depende, na sua quase totalidade, das disposições da opinião pública. Quando o povo está cansado de guerra, está na hora de o lado militarmente mais fraco ofecerer a paz ao mais forte em troca de vantagens políticas. A mídia é o instrumento-chave dessa mutação. Respaldada por ela, a equipe de governo de Barack Hussein Obama já oferece ao Hamas a oportunidade de transformar a derrota em vitória por meio do “diálogo”. Nenhuma organização terrorista aspira senão a isso: ser transmutada de bando de criminosos em organização política decente, portadora dos méritos da “paz”. Por isso mesmo a guerra assimétrica é chamada, tecnicamente, de “a derrota do vencedor”. Sob a pressão da mídia mundial, Israel arrisca-se a cair nesse engodo pela milésima vez.
Armazenzinho
Posted in Curiosidades on 13 Janeiro, 2009 by David CohenSe você é morador do Rio de Janeiro - ou apenas tem curiosidade para conhecer as histórias da antiga Capital da República - trago boas notícias. A Prefeitura organizou em seu portal na internet um site chamado Armazenzinho. Em princípio voltado para o público adolescente, o site reúne informações como a história dos bairros, cartografia da cidade e muito mais. Vale a pena conhecer.
Blog Original
Posted in Selo on 12 Janeiro, 2009 by David Cohen
Em dezembro do ano passado o “Vala Comum” foi contemplado com o selo “Blog Original”, oferecido pelo blog “Bonita…Confissões”. Valeu Flavianna!
Segue abaixo minha relação de indicados:
2. (…)
Parabéns a todos os indicados. Tenham certeza de que o prêmio é mais do que merecido.
O primeiro dia útil do ano
Posted in Uncategorized on 5 Janeiro, 2009 by David CohenHoje é segunda-feira, 05 de janeiro de 2009, o primeiro dia útil do ano. Certamente os mais pragmáticos dirão: “Mentira, o primeiro dia útil do ano foi sexta-feira passada, dia 02!”. Outros, mais inclinados aos festejos, alertarão: “O ano só começa depois do Carnaval!”.
Com todo o respeito que merecem as opiniões contrárias, é impossível começar qualquer coisa numa sexta-feira, assim como é igualmente impossível esperar até março para colocar em prática todos os planos que povoam nossos pensamentos. Nem tanto à terra, nem tanto ao mar, meus amigos. Hoje é o primeiro dia útil do ano, conformem-se.
Mas nem tão útil assim. O que se vê são as pessoas vagarosamente retornando às suas atividades, tomadas de verdadeira preguiça existencial. A essa altura, muitas das promessas de fim de ano, depois de tanto espumante, já escoaram pelo ralo da memória. E nada mudou. Quem era duro continua duro; Quem estava acima do peso continua acima do peso (ou mais ainda depois de tantos quitutes); E quem torcia para time da Segunda Divisão continua torcendo para o mesmo time.
Isso sem falar nas famosas despesas de começo de ano: IPTU, IPVA, seguro do automóvel, anuidade do conselho profissional (OAB, CREA, CRM, etc.), lista de material da escola, uniforme, renovação de matrícula… ufa!
E assim, em clima de ressaca, amanhece o primeiro dia útil do ano: cara amassada, calendário amassado e, para alguns, mais afortunados, lembranças de belos amassos.
Por mais que seja duro encarar a realidade, animem-se, pois ainda temos 360 dias pela frente.
Receita de Ano Novo
Posted in Poesia on 30 Dezembro, 2008 by David CohenPor Carlos Drummond de Andrade
Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)
Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.
Linha vermelha ¹
Posted in Poesia on 25 Dezembro, 2008 by David Cohen
Seis da tarde
Trânsito intransitável
Vidros suspensos
Ambulantes em frenesi
Meninos malabaristas
Na corda-bamba
Ruídos entrecortados
Últimas notícias…
Um homem fora do carro
Olhares curiosos
O tempo inesgotável
Jornal de amanhã
Tumulto no acostamento
A mureta encurralante
Um cortejo estacionado
Sobre a via-funeral
Estampidos, pânico
A orquestra do medo dissimula
Famílias em alvoroço
Burburinho, desatino
A manobra por uma vida
Desconcertada…
Um corpo atravessado
Sirenes em errância
A alma devassada
Por uma linha vermelha
De sangue.
____________________
1 – A RJ-071, oficialmente denominada Via Expressa Presidente João Goulart e popularmente conhecida como Linha Vermelha é uma via expressa do estado do Rio de Janeiro, que liga os municípios do Rio de Janeiro e São João de Meriti, atravessando também o município de Duque de Caxias.
Por atravessar diversas áreas carentes, é atualmente conhecida pelos freqüentes atos de violência que ocorrem em seu entorno, visto ser margeada por aproximadamente 18 favelas, todas repletas de atividade criminosa do tráfico de drogas.
O calibre do meu medo
Posted in Uncategorized on 21 Dezembro, 2008 by David CohenDesde que circulou na imprensa a notícia da absolvição do PM acusado do homicídio do menino João Roberto que venho amadurecendo a idéia de escrever um post sobre o assunto. Se a morte de uma criança, atingida por um tiro na cabeça dentro do carro dos pais, não é motivo suficiente para uma condenação, o que mais pode ser? Eu moro na Tijuca, bairro que fica localizado na Zona Norte do Rio de Janeiro. Por coincidência, o mesmo bairro em que foi baleado o menino João Roberto. Minutos antes de escrever esse post eu ouvi estampidos de tiros. Ouço sempre, pois se tornou comum esse tipo de barulho na Cidade Maravilhosa. Uma espécie de sinfonia do medo, com a qual não pretendo me acostumar. Hoje estou na frente do computador escrevendo um texto para dividir minhas idéias com vocês. Amanhã eu não sei. Eu adoro a minha cidade. Apesar de ter nascido em Ribeirão Preto, interior de São Paulo, vim morar no Rio de Janeiro quando tinha apenas 1 ano de idade. Aqui é a minha cidade.
Quem acompanha esse blog já se acostumou com meus posts sobre o Rio Antigo e sobre as belezas dessa cidade. Mas o Rio de Janeiro está acéfalo, sem comando, sem ordem. As madrugadas são assustadoras. Ontem um casal teve seu carro interceptado num sinal de trânsito que fica em frente ao meu prédio por bandidos armados com fuzis. Outro dia um idoso foi assaltado e morto na saída do banco que sou correntista. Não é possível sair a noite sem ser importunado por pivetes e moradores de rua. Não podemos fechar os olhos para a dura realidade da nossa cidade.
Na absolvição do menino João Roberto a sociedade lavou as mãos. Sim, pois a decisão foi proferida pelo 2º Tribunal do Juri da Capital. Para aqueles que não sabem, no Tribunal do Juri quem decide não é um magistrado, mas pessoas do povo. Um menino morreu dentro do carro de sua mãe e os jurados entenderam que isso não é suficiente para condenar o responsável pelos disparos. Pobre policial, confundiu o carro da família com o dos bandidos que ele perseguia; confundiu a bolsa da mãe do menino com um artefato; apenas se confundiu e sua confusão o legitima a desferir mais de 15 tiros contra um veículo parado.
Eu sou o maior defensor da atividade policial. Moradores de comunidades carentes fazem passeata em protesto contra as ações da polícia, mas não fazem absolutamente nada contra os traficantes que tomam conta das favelas. Se locupletam de favores espúrios. Silenciam.
A verdade é que inocentes não podem continuar sendo assassinados impunemente. Seja o homicida um policial ou um traficante, a vida de uma criança não pode ser retirada nessas circunstâncias. Me perdoem o desabafo.
Me lembrei de uma canção dos Paralamas do Sucesso que retrata muito bem esse sentimento. Se puderem, ouçam e reflitam. Mas apenas refletir pode não ser mais o suficiente…
O Calibre
Herbert Viana
Eu vivo sem saber até quando ainda estou vivo
Sem saber o calibre do perigo
Eu não sei da onde vem o tiro (2x)
Por que caminhos você vai e volta?
Aonde você nunca vai?
Em que esquinas você nunca pára?
A que horas você nunca sai?
Há quanto tempo você sente medo?
Quantos amigos você já perdeu?
Entricherado, vivendo em segredo
E ainda diz que não é problema seu
E a vida já não é mais vida
No caos ninguém é cidadão
As promessas foram esquecidas
Não há estado, não há mais nação
Perdido em números de guerra
Rezando por dias de paz
Não vê que a sua vida aqui se encerra
Com uma nota curta nos jornais
Eu vivo sem saber até quando ainda estou vivo
Sem saber o calibre do perigo
Eu não sei, daonde vem o tiro (2x)