Cabedal

Quanto ainda me resta?

Um minuto e uma saudade

Um livro não escrito

E meia dúzia de idéias…

Pilhas de contas p’ra pagar

Um crédito na locadora

Um CD no porta-luvas do carro

Que não pude ter…

Uma dúzia de amigos

E frutas na geladeira

Um terno amarrotado

E uma bainha por fazer

Um par de sapatos italianos

E um surrado da Adidas…

Quanto ainda me resta?

Três congelados no freezer

Meio grau de miopia

E um jogo de copos de cristal…

Um calendário de 89

Um álbum de fotos de família

Sem cabedal…

Duas almofadas  

Uma Montblanc e uma caixa de grafites

Sete cartas de amor

E um destinatário incorreto…

Quanto ainda me resta?

Um tapete persa Tabacow

Meia garrafa de sidra

E uma aliança de noivado…

Uma agenda de amigo oculto

Um telefone de disco

E o eterno esquecimento…

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11 Respostas to “Cabedal”

  1. Por esse poema, vc parece ter tudo e nada ao mesmo tempo. Ou melhor, trm muito, mas não tem o suficiente.

  2. David,
    Seu cabedal mais importante nem é o material,são seus “bens intelectuais” e vc sabe disso. Só tendo um lado intelectual como o seu, pode escrever bem assim( eita puxada!rs).
    Beijos e um excelente fim de semana!

  3. Se vc tem uma caneta, para que ter grafite?
    E que história é essa de esquecimento?

    Brincadeira à parte, gostei do poeminha. Muito maneiro mesmo. Bem paradoxal, bem introspectivo. Típico daquele pensamento pré-morte. Parabéns!

  4. Um comentário sincero seria “esse é bom, mas não é dos meus preferidos”. Um comentário aceitável seria “parabéns!”. O meu comentário, de verdade, seria algo como “esse é bom, mas não é dos meus preferidos. quisera eu poder escrever algo assim e dar-me ao luxo de não gostar. parabéns!”

    Por essas e outras eu prefiro às vezes deixá-lo sem meus comentários… rs

  5. Belo texto. Gostei bastante. O sofrimento é inspirador memso.

  6. Fantástico. Um inventário do quanto ainda nos resta.
    Muitas vezes, a única coisa que nos resta é o tempo de espera.
    E só.
    Ficou bem legal

    Abs

  7. bom texto, preocupado com o tempo, tempo de espera, tempo de partida, tempo perdido …paradoxal

  8. Adorei!!! Não conhecia esse teu lado poeta ainda… gostei demais mesmo. Mas também gostaria de saber o porque de se ter grafites e uma caneta… É intencional para mostrar a inutilidade das coisas que não combinam? Bem, não vou viajar na sua poesia… cada um interprete a seu modo. Eu amei e gostaria de ver mais textos seus assim.
    Beijinhos!!!

  9. Adorei simplesmente perfeito se tiver mais desses posta ai. Gostei de tudo parabens, seu blog tem o que falta em quase todos criatividade para coisas construtivas. E verdade que os blogs tem que ser divertidos, mas e bom sair normalidade. Faço questão de expalhar um dos melhores que ja entrei.

  10. Sem palavras… O silêncio guardado nas coisas que se acumulam em vão. O vazio inexplicável e triste dos dias que se sucedem iguais.
    Concordo que deves postar mais de suas poesias, são belas, tocantes e nos convidam a viajar para dentro das coisas que nos ardem. Lembras uma das faces de Fernando Pessoa. Ou escritores do Absurdo, como Albert camus.

    Abraços

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