Cabelos brancos

Esse ano surgiram meus primeiros cabelos brancos. Tudo bem, não sei se foram exatamente os primeiros, mas apenas neste ano me dei conta da existência deles. Até bem pouco tempo atrás, minha maior preocupação – do ponto de vista capilar – era com a manutenção dos cabelos. Eu buscava de todas as formas fugir de uma calvície precoce e confesso que temia que não me restassem fios para branquear. Felizmente, até o momento, não foi o que aconteceu.

Reluzentes, meus primeiros cabelos brancos habitam as laterais de minha cabeça, onde destoam dos “irmãos” de cor escura. Pensei em arrancá-los com um pinça, mas fui advertido de que nasceriam em maior quantidade se eu fizesse isso. Voltei atrás, mas ainda não estou convicto de que tomei a decisão mais correta. Afinal, que mal haveria se eles tomassem conta de minha cabeça?

Costuma-se associar os cabelos brancos à maturidade e à experiência. Há até mulheres que afirmam que as rugas e os cabelos grisalhos trazem um certo charme para os homens, o que elas chamam de “beleza madura”. Não me parece que cabelos brancos embelezem quem quer que seja, mas sou capaz até de adquirir um certo ar professoral em função deles. E olhem que, por enquanto, são apenas uma meia-dúzia.

Na verdade, cabelos brancos são sinais evidentes de uma rotina desgastante. Desde muito jovens precisamos nos preocupar com “o que vamos fazer quando crescer” e, quando finalmente achamos que crescemos, continuamos com a mesma pergunta na cabeça. Perdemos a maior parte do tempo projetando a nossa vida, alicerçando sonhos que nem mesmo sabemos se seremos capazes de realizar. O sucesso parece uma estrada que vai se estreitando até encontrar o horizonte, uma corrida desenfreada em busca de paz e felicidade.

E ao longo dessa corrida eles vão aparecendo. Como cicatrizes que brotam de dores silenciosas, os sorrateiros cabelos brancos vão construindo seu império. E quando chegamos, finalmente, ao derradeiro trecho dessa estrada, em que tapetes são estendidos sobre buracos, já podemos dizer que temos uma vaga idéia do que seria o melhor caminho. Mas não podemos voltar atrás.

Talvez a cor de nossos cabelos se esmaeça a cada susto, a cada tropeço, a cada frustração pela escolha que supomos equivocada. Cada lágrima e cada gota de suor que escorre por nossa pele leva um pedaço do que fomos. Com o tempo descolorimos.

Esse texto é a forma que encontrei de dar as boas vindas aos meus cabelos brancos. Não pretendo mais ignorar a existência deles. Serão tratados com profunda cordialidade e espero que, nos próximos anos, eles conversem bastante comigo, não me permitindo que esqueça cada um dos seus infinitos significados, cada história que corporificam. Sejamos bons anfitriões.

E para terminar, vou dividir com vocês uns versos de uma música do Herivelto Martins que se chama, adivinhem, “Cabelos Brancos”: “Ninguém viveu a vida que eu vivi/ Ninguém sofreu na vida o que eu sofri/ As lágrimas sentidas, os meus sorrisos francos/ Refletem-se, hoje em dia, nos meus cabelos brancos.”

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8 Respostas to “Cabelos brancos”

  1. Melhor conviver com os cabelos brancos do que viver sem eles (os brancos, os pretos, os loiros, os ruivos…).

  2. Eu ainda não aceitei os meus e procuro ignorá-los. Confesso que às vezes me pego olhando os shampoos tonalizantes pra ver qual a cor que eu vou ter que usar quando se tornarem indisfarçáveis. A aparência de mulher madura, infelizmente, não é tão bem – vinda quanto a do homem maduro

  3. Aeeew ficou velinho hehe

    po e isso mesmo eles são sinais de sua vivencia!!

    mas concordo com o colega acima, melhor brancos do que nenhum!

    abraços

    passa lá e se gostar assine o feed

    http://www.som10.blogspot.com

  4. Eu nunca tive traumas em assumir os meus cabelos brancos, até a hora em que eles se tornaram a imensa maioria da colônia. Então, família, amigas, cabelereiros fizeram manifestação pública e praticamente me vi constrangida a tingi-los da cor quase original (se fosse a original seria berrantemente preto – quer coisa mais falsa que isso? rss).

    Mas, que um homem grisalho é um charme… ui… isso é, mesmo!

    Quanto ao Café 42, obrigada pela visita! Sim, eu adoro diálogos. Mas a maior parte do meu trabalho blogueiro está no Caldeirão da Bruxa. Gosto de fazer “novelinhas blogueiras”. Semana que vem começo outra, um conto antigo, que foge um pouco ao estilo atual que venho seguindo. Será um prazer imenso!

    Estou linkando você.

    bjs

    http://caldeirao-da-bruxa.blogspot.com

  5. Cara, eu reparei nisso na última vez que te vi mas não falei nada pra não magoar. Mas já que vc tocou no assunto, agora me sinto livre pra te sacanear de vez em quando.

  6. Eu sou partidária daqueles que admiram rugas e cabelos brancos, ambos expressivos, são o reflexo de uma vida. Cada fiozinho será certamente uma hilária história pra contar. Mas confesso que fica muito fácil pra mim pensar assim já que ainda não tenho nenhum fio branquelo… qdo chegarem eu repenso.

  7. Humm, olha, eu tenho cabelos brancos desde os 16 anos. É genética, a família da minha mãe é assim, todos com muito cabelo, porém, brancos. Já a família do meu pai, o problema é a calvície. Eu puxei a minha mãe e o meu irmão misturou os dois, ou seja, é calvo e grisalho… Mas, eu não sei se você sabe, mulher não fica velha, fica loira e quanto aos homens, acho que ficam mais bonitos com os cabelos grisalhos do que pintados!

    beijos

  8. o melhor texto do blog

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