O calibre do meu medo

Desde que circulou na imprensa a notícia da absolvição do PM acusado do homicídio do menino João Roberto que venho amadurecendo a idéia de escrever um post sobre o assunto. Se a morte de uma criança, atingida por um tiro na cabeça dentro do carro dos pais, não é motivo suficiente para uma condenação, o que mais pode ser? Eu moro na Tijuca, bairro que fica localizado na Zona Norte do Rio de Janeiro. Por coincidência, o mesmo bairro em que foi baleado o menino João Roberto. Minutos antes de escrever esse post eu ouvi estampidos de tiros. Ouço sempre, pois se tornou comum esse tipo de barulho na Cidade Maravilhosa. Uma espécie de sinfonia do medo, com a qual não pretendo me acostumar. Hoje estou na frente do computador escrevendo um texto para dividir minhas idéias com vocês. Amanhã eu não sei. Eu adoro a minha cidade. Apesar de ter nascido em Ribeirão Preto, interior de São Paulo, vim morar no Rio de Janeiro quando tinha apenas 1 ano de idade. Aqui é a minha cidade.

Quem acompanha esse blog já se acostumou com meus posts sobre o Rio Antigo e sobre as belezas dessa cidade. Mas o Rio de Janeiro está acéfalo, sem comando, sem ordem. As madrugadas são assustadoras. Ontem um casal teve seu carro interceptado num sinal de trânsito que fica em frente ao meu prédio por bandidos armados com fuzis. Outro dia um idoso foi assaltado e morto na saída do banco que sou correntista. Não é possível sair a noite sem ser importunado por pivetes e moradores de rua. Não podemos fechar os olhos para a dura realidade da nossa cidade.

Na absolvição do menino João Roberto a sociedade lavou as mãos. Sim, pois a decisão foi proferida pelo 2º Tribunal do Juri da Capital. Para aqueles que não sabem, no Tribunal do Juri quem decide não é um magistrado, mas pessoas do povo. Um menino morreu dentro do carro de sua mãe e os jurados entenderam que isso não é suficiente para condenar o responsável pelos disparos. Pobre policial, confundiu o carro da família com o dos bandidos que ele perseguia; confundiu a bolsa da mãe do menino com um artefato; apenas se confundiu e sua confusão o legitima a desferir mais de 15 tiros contra um veículo parado.

Eu sou o maior defensor da atividade policial. Moradores de comunidades carentes fazem passeata em protesto contra as ações da polícia, mas não fazem absolutamente nada contra os traficantes que tomam conta das favelas. Se locupletam de favores espúrios. Silenciam. 

A verdade é que inocentes não podem continuar sendo assassinados impunemente. Seja o homicida um policial ou um traficante, a vida de uma criança não pode ser retirada nessas circunstâncias. Me perdoem o desabafo.

Me lembrei de uma canção dos Paralamas do Sucesso que retrata muito bem esse sentimento. Se puderem, ouçam e reflitam. Mas apenas refletir pode não ser mais o suficiente…

O Calibre

Herbert Viana

Eu vivo sem saber até quando ainda estou vivo
Sem saber o calibre do perigo
Eu não sei da onde vem o tiro (2x)

Por que caminhos você vai e volta?
Aonde você nunca vai?
Em que esquinas você nunca pára?
A que horas você nunca sai?
Há quanto tempo você sente medo?
Quantos amigos você já perdeu?
Entricherado, vivendo em segredo
E ainda diz que não é problema seu

E a vida já não é mais vida
No caos ninguém é cidadão
As promessas foram esquecidas
Não há estado, não há mais nação
Perdido em números de guerra
Rezando por dias de paz
Não vê que a sua vida aqui se encerra
Com uma nota curta nos jornais

Eu vivo sem saber até quando ainda estou vivo
Sem saber o calibre do perigo
Eu não sei, daonde vem o tiro (2x)

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11 Respostas to “O calibre do meu medo”

  1. Antes abríamos o jornal ou ligávamos a TV e as coisas aconteciam bem longe da nós. Agora, está tudo na porta de casa. Gabriela Maia Prado, o idoso da agência bancária, homens armados com fuzis e o PM absolvido porque confundiu um Palio prata com um Stilo preto (que era o carro dos bandidos) e matou uma criança.

    Somos uma sociedade oprimida, fechada atrás de grades, dentro dos carros, avançando sinais e cheia de adrenalina quando passa o mais simples grupo de adolescentes alegres conversando (logo pensamos que é bando). A vontade de deixar a cidade em que nasci, que eu vivia chamando de maravilhosa, cresce a cada dia.

  2. Refletir não é o suficiente há muito tempo, reparou?
    E a cada dia que passa eu me convenço que há menos coisas que eu possa fazer, sozinha. Eu não sou corajosa, nunca fui. Minha vida não tem atos grandiosos, nem nunca terá, a não ser que minha morte seja um, e que assim eu faça parte das estatísticas e, com ela, outras pessoas se inspirem e tenham mortes grandiosas, até o dia que serão tantos os mortos “em batalha” que aqueles que até agora conseguem ignorar serão obrigados a fazer alguma coisa, trancar suas casas, ir aos jornais.

    Tenho um primo com opiniões que até o ano passado eu considerava radicais. Para ele, certas pessoas só melhoram com a morte – elas morrem e livram o mundo da carga negativa e do mal que trazem. Eu não achava isso porque os mortos nós não controlamos – os vivos ao menos nós vemos.

    Religiões a parte, entristeço cada vez que deixo de fazer algo por medo, cada vcez que, por medo, atravcesso a rua ao ver o grupo de jovens passar (como disse a Fernanda), cada vez que, no ônibus, seguro a bolsa e olho tensa pela janela.

    Segurar a bolsa não resolve, atravessar a rua não resolve. Tiros não se resolvem dessa maneira. E eu também tenho ouvido muito mais tiros do que há alguns anos, quando podia me dar ao luxo de ficar na rua até tarde, brincando. Hoje em dia, só quem fica na rua brincando são as crianças que têm as armas ou que conhecem as pessoas que têm as armas. Para elas, além de hábito, é uma honra.

    Uma pena. Temo pelos filhos que ainda terei.

    E desculpe postar aqui, David..

  3. Nunca fui ao Rio de Janeiro, mas já tenho notícias da violência da cidade. Todos falam de suas belezas naturais, mas já advertem que é bastante violenta a cidade. Seria culpa da polícia?
    Penso que sim, vide outras capitais que têm tantos habitantes mas controlam o nível de violência.
    É triste ver casos de assaltos, mortes próximos a nós e não podermos fazer nada. Um dia, minha tia estava me contando de um cara que fui fuzilado na porta do prédio dela, todos os moradores apagaram a luz e fingiram que não estavam em casa.
    O pior é que isso já faz parte do cotidiano das metrópoles, mas não poderia.

  4. VOU EXPLICAR TUDO PRA VOCÊS DE FORMA SIMPLIFICADA: a Polícia Militar, desde a sua criação no século XIX, só atuava como tropa de choque, ficando acautelada no quartel. Com o início da ditadura, a Polícia Militar ganhou outra função: tropa auxiliar do exército, podendo patrulhar as ruas.
    O despreparo de nossa Assembléia Constituinte com relação a mecanismos policiais, manteve o mesmo modelo ditatorial, agravando contudo a forma de comando. O único país do mundo, além do Brasil, que adota uma polícia judiciária e ostensiva é a Turquia.
    Além disso, a maioria das polícias dos países desenvolvidos possui, o que se chama administrativamente de sistema de mérito: o soldado ao longo de sua carreira pode chegar até Comandante Geral. Atualmente, as Polícias Federal, Civil ou Militar possuem um sistema de RH precário, além da falta de recursos, assessoria de imprensa e especialização.
    Alguns estudiosos acreditam que até 2030 o quadro da segurança pública no Rio de Janeiro entrará em total colapso. Mas fiquem tranqüilos, o aquecimento global já deve ter acabado com todos nós mesmo!

  5. David, é muito triste assistir a tudo isso que vem acontecendo com o Rio. Já fui muito para a cidade maravilhosa, andava a pé por Ipanema, Leblon (minha tia nessa época morava em Ipanema) e nunca pensei que teria muito medo de ir para o Rio. Hoje tenho e muito, muito mesmo. Não que BH seja uma cidade tranquila, longe disso, mas percebo muitas diferenças que acabam piorando a situação da sua cidade.

    Ainda tenho um tio que mora aí (no Jardim Botânico) e de uns tempos para cá ele tem ficado com um medo incrível de morar aí (ele inclusive trabalha na FioCruz). Concordo com você, o Rio está acéfalo e sem rumo e quem acaba sofrendo são os cidadãos de bem. Uma pena…

    beijão

  6. E o pior é que essa música já tem uns cinco anos de idade. Ela é mais velha que muitos mártires anônimos…

  7. Moro em São Paulo e o problema não é diferente. O que me incomoda foi o fato dos jurados serem pessoas como eu e você, dispostos, realmente, a abrir mão de direitos básicos como segurança a favor da insegurança do despreparo da nossa polícia, que deveria, a principio, resguardar a vida humana. De repende, o grande vilão da história não é polícia e nem ladrão, mas somos nós mesmos que não reagimos a isso.

  8. David,seus posts,todos,sempre mexem comigo,mas esse me emocionou demais… fiiquei cá a imaginar a sinfonia do medo… triste,muito triste isso!É preciso ser feito algo,antes que esse seja o unico som a escutarmos.Moro no interior,bem próximo a sua terra natal,e já aqui os sons do terror se fazem cada dia mais audiveis…

    Aproveito pra desejar a voce e os seus,um feliz natal e um 2009 de paz,com melodias suaves! E saúde sempre.

    beijão,

  9. A responsabilidade pela absolvição do PM não pode, dessa vez, ser atribuída à “Justiça”. Ele foi absolvido por um júri, um corpo de sete cidadãos comuns, cuja decisão é soberana – ao juiz só cabe fixar a pena. E é por essas e por outras que eu sou partidário da extinção do Júri. A sociedade não tem, como eu acho que, no Brasil, nunca teve, condições de julgar ninguém. Tanto não tem que, em um período em que se clama por uma justiça expurgatória, pela pena de talião, em que se sustenta com cada vez mais veemência que a violência só se resolve com mais violência, absolve um infeliz que demonstra, no mínimo, incapacidade mental de exercer suas funções públicas (porque um PM que age da forma como agiu não tem capacidade sequer de sair de casa).

    A sociedade se corrompeu, se banalizou. Virou um espelho da realidade em que está inserida. O mal está feito. A vida nunca foi tão desprezada. A sociedade falida comprovou estar em sintonia com as instituições falidas do Estado. A mim só resta me envergonhar e esperar que o fundo do poço esteja perto, porque de lá a única tendência é subir (eu sou um otimista).

  10. Eduardo, nunca te disseram que sempre existe a possibilidade de voce estar no fundo do poço, jogarem uma pá e te mandarem cavar um pouco mais fundo?

    Eu concordo que existe problema, mas esse problema, infelizmente, não é exclusivo do Rio de Janeiro. Lembro que há algum tempo estava lendo no correioweb um candidato a concurso no Rio perguntar se era verdade que as pessoas andam aqui nas ruas com capacetes para se protegerem de bala, como se ninguém corresse risco semelhante em outras grandes cidades do mundo. Cada um com seu problema.

    Isso não exime a nossa responsabilidade – sim, NOSSA – em fazer alguma coisa. Mas, como diria um consultor do trabalho, existem pessoas com iniciativa e acabativa. Sou péssima nas duas, mas sou boa em continuidade. Comecem, eu ajudo a desenvolver e alguém termina. Mas por favor, rápido. Não gosto de ter medo de fogos de artifício pela probabilidade de darem tiros simultâneos a eles…

  11. Leandro Pio Says:

    Olá, bom dia a todos.
    Sou do interior de MG e fui estudar em Petrópolis, região serrana do Rio de Janeiro, onde morei por 6 anos. Quando terminei meus estudos, me vi na eminência de ter que morar e trabalhar no Rio de Janeiro, já que em Petrópolis as oportunidades na minha área são escassas. Por um bom tempo eu preferi encarar o cansaço de ir e voltar todos os dias para Petrópolis do que morar no Rio de Janeiro. Larguei o emprego que eu estava aí e vim trabalhar em Belo Horizonte.

    Eu já tive uma experiência negativa de ser assaltado em plena luz do dia no Terminal Menezes Cortes, no centro do Rio. Recentemente, mataram o dono de uma banca de jornais em frente a igreja da Candelária e ao prédio que eu trabalhava em plena luz do dia. Mas boa parte do meu medo se deve às coisas que vejo no jornal, na tv, na internet. Casos como do menino João Roberto, ou do João Hélio, entre vários outros que nos deixam horrorizados. Hoje li uma reportagem sobre uma jovem que foi assassinada, na frente dos pais, porque se negou a entregar o crachá do trabalho para os bandidos.

    O meu medo do Rio de Janeiro é que os bandidos estão na rua o tempo todo. O cidadão que trabalha a semana toda, paga seus impostos não pode andar nas ruas da sua cidade sem ser importunado. Eu fiquei pensando, se eu estivesse no Rio, teria um salário muito melhor que tenho hoje aqui em Belo Horizonte. Talvez com uma oportunidade de crescimento muito mais rápido do que aqui em Minas Gerais. Mas penso, o que adiantaria ter prestígio e ter que viver escondido? Ou ter um carro importado e correr o risco de ser assaltado em algum sinal? Ou até mesmo poder comprar um relógio bacana, um cordão de ouro e não poder usar? Então comecei a pensar, qual o objetivo de viver e trabalhar no Rio de Janeiro?

    E essa pergunta me fez vir para BH. Não que aqui seja um lugar maravilhoso, onde você pode andar sem se preocupar com nada. Não! Aqui também tem violência. Aqui também assaltam nos sinais. Aqui também roubam o teu relógio, cordão. Aqui tem tudo isso. Mas convenhamos, o Rio de Janeiro passou do limite da impunidade. Virou a cidade dos bandidos. A cidade do crime. Qualquer lugar parece ser melhor pra viver do que o Rio de Janeiro. É uma pena. Fico pensando se em algum dia vamos acabar de vez com a criminalidade.

    E não adianta falar que o problema é só falta de emprego não. Tem muita gente ruim mesmo. Tirar a vida de uma garota por causa de um crachá, isso é maldade e deveria ser punido com pena de morte. Pena que aqui no Brasil bandido tem todos os direitos garantidos.

    Abraço a todos

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