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Lobão, Nelson Motta, Chico e a Bossa Nova

Posted in Crítica on 8 novembro, 2008 by David Cohen

lobao

E o velho lobo (que não é o Zagallo) continua se insurgindo contra “a velocidade terrível da queda”. Autor de inúmeras frases polêmicas, Lobão, “o Agnaldo Timóteo do Rock and Roll”, mandou mais uma das suas durante o FLOP, Fórum das Letras de Ouro Preto. Num animado bate papo com Nelson Motta, a metralhadora giratória de Lobão resolveu voltar-se contra Chico Buarque e a Bossa Nova. Aliás, parece que está na moda falar mal da Bossa Nova. Seguem baixo algumas de suas declarações:

“Eu acho o Chico Buarque um horror, um equívoco, um chato, um parnasiano. O Olavo Bilac é muito mais moderno que ele. Ele faz uma música anêmica, sem energia, sem vivacidade, parece que precisa tomar soro. A Bossa Nova é a mesma coisa, uma música easy listening, que toca em loja de departamento quando a gente vai comprar uma meia.”

“Todo mundo daria a ***** para ter uma música gravada pelo João Gilberto, mas eu respondi: ‘Quero que ele se ****, acho ele um chato de galocha’. Depois eu soube que ele ficou ofendidíssimo, mas odeio essa sacralização da Bossa Nova, acho isso uma *****, uma coisa jeca, sem tesão.”

É claro que todo mundo tem direito de gostar e desgostar do que bem entende e deve ser respeitado por suas opiniões. Mas me parece que essa agressividade pré-formatada do Lobão está ficando caricatural demais, com ares niilismo juvenil. Um típico esperneio de quem não consegue espaço na mídia.

Confesso até que admiro muitas das canções do Lobão, que na minha opinião é um dos últimos bons letristas do rock nacional. Realmente nos dias de hoje é praticamente impossível conseguir espaço na mídia, corrompida pelo famoso “jabá” das grandes gravadoras, que nos tentam empurrar goela abaixo seus “talentosíssimos apadrinhados”. Mas não acredito que o melhor caminho seja atacar Chico Buarque e os bossanovistas, que inegavelmente engrandeceram a música popular brasileira.   

Mas o pior mesmo foi Nelson Motta falar que “as pessoas acham que quem fazia sucesso na década de 70 era Chico Buarque e Caetano Veloso. Errado, eles só eram ouvidos pela classe média alta. Quem vendia mesmo e fazia mais shows eram Waldick Soriano, Odair José, Antonio Marcos…”. Pelo visto, os ídolos da MPC (música que o povo canta, segundo batismo do Jornal Extra) estão mesmo em alta, mas isso não é o mais relevante.

Não restam dúvidas de que Chico e Caetano nunca foram grandes vendedores de discos. Mas será que o melhor critério para se analisar as referências musicais de uma época é mesmo o da quantidade de discos vendidos? Será que daqui a 30 anos vamos olhar para trás e descobrir que os principais expoentes de nossa década foram Leonardo e Zezé di Camargo & Luciano? Ou terá sido algum funkeiro, tipo MC Leozinho?

Enfim, acho que Chico e a Bossa Nova merecem respeito. Podem até não gostar, mas nunca a música brasileira obteve tanto reconhecimento internacional quanto obteve com a Bossa Nova. Quanto ao Chico, acho que eu sou suspeito para falar, a sua obra (musical e literária) fala por si só. Já os livros do Nelson Motta…  

MPC? Isso só pode ser piada…

Posted in Crítica on 4 outubro, 2008 by David Cohen

 

 

No ano em que a Bossa Nova completa seu qüinquagésimo aniversário, o Jornal Extra, do Rio de Janeiro, vem publicando uma série de reportagens batizadas de MPC – Música que o Povo Canta, alavancadas pelo seguinte lema: “Chega de Saudade da Bossa Nova!”.

 

Apenas para que se tenha uma idéia, os principais “expoentes” da MPC, segundo o Jornal Extra, são Nelson Ned, Waldick Soriano, Agnaldo Timóteo, Odair José, Reginaldo Rossi, Benito di Paula, entre outros. Eles se dizem cantores românticos; a crítica os rotulou de “bregas”. Afinal de contas, o que são esses cantores?

 

Em recente entrevista para o mesmo tablóide carioca, o cantor Agnaldo Timóteo, elevado à condição de ícone da MPC, foi categórico: “João Gilberto não canta. (…) O que foi que ele fez pela música brasileira nos últimos 50 anos?”.

 

É bem verdade que João Gilberto nunca primou pelo vozeirão, assim como Tom Jobim, Vinícius de Moraes e Carlinhos Lyra, só para citar alguns dos bossanovistas mais aclamados. Mas é inegável e indiscutível a contribuição de todos eles e, sobretudo, do violão de João Gilberto para a história da música popular brasileira.

 

João Gilberto não precisa fazer mais nada pela música brasileira, já fez. Não precisar ser simpático com jornalistas, não precisa compor novas canções, não precisa dar entrevista em programa de auditório. João Gilberto, assim como Tom e Vinícius, constitui um dos pilares da Bossa Nova. E o que eles fizeram pela música brasileira jamais será esquecido.

 

Num país de memória curta, em que palácios são destruídos por insólitas decisões políticas e ídolos são achincalhados pela opinião pública, reportagens como essa soam como verdadeira apologia à miséria intelectual brasileira, que os veículos de comunicação de massa teimam em perpetuar.

 

Eterna saudade da Bossa Nova.