Archive for the Poesia Category

Hora Perdida

Posted in Poesia on 6 maio, 2009 by David Cohen

Eu poderia perder horas

Correndo meus dedos pelos ponteiros

Até encontrar o vazio do tempo

 

Escondido por trás da pálpebra

(feito criança atrás da cortina)

Eu me deixaria esquecer

Naquele pique de 88…

 

Girando feito roda

Carrossel mãos unidas

Uma história pra dormir

(quem foi que inventou o interruptor?)

 

Tabuada, argh!

Livrinho de papel reciclado

(será que já tinha?)

Devia ser de outra coisa…

 

Amigos no portão

Time contra

Mas todos a meu favor

(de quem era a bola?)

 

Sola de chinelo

Uns cinco por ano

Asfalto quente e um pé que não pára de crescer

(quantos remendos eu fiz no dedão?)

 

Uma explicadora

Idéia da minha mãe

 (esse menino precisa aprender a escrever)

E lá se foram as férias de 92…

 

Eu poderia perder horas

Perdendo a hora…

(Próxima estação, Carioca…)

Preparativos

Posted in Poesia on 28 abril, 2009 by David Cohen

 

Quando você chegar

Eu preciso estar preparado

Barba feita, banho tomado

E o perfume certo no pescoço

Vou precisar ter lido aquele livro

E conhecer os filmes que estão em cartaz

Talvez seja bom aprender sobre vinhos

E me atualizar sobre a cura do câncer.

 

Quando você chegar

Não posso errar seu prato favorito

Nem esquecer de elogiar o seu vestido

Preciso lembrar de abrir a porta do carro

E descobrir as canções que mais lhe agradam

Talvez eu arrisque um palpite sobre seu signo

Ou invente uma origem para seu sobrenome.

 

Quando você chegar

Vou precisar ser bem sucedido

E dizer as palavras que você sempre quis ouvir

Talvez eu devesse trocar os móveis da sala

Deixar a mesa posta

E cortar as unhas do pé.

 

Quando você chegar

Eu vou ter que rasgar esse poema.

Tributo ao Pai

Posted in Poesia on 25 abril, 2009 by David Cohen
Foto de Rudy Trindade

Foto de Rudy Trindade

É, faz tempo.

Parece que foi ontem…

– É menino, é um garotão!

Você não se conteve.

Charuto, abraço, lágrima

Silêncio

Você era finalmente pai.

 

Das paredes azuis

Ao bolo de 1 ano

A primeira palavra:

Ma-mãe.

Você não se importava

Não tinha dúvidas

A segunda certamente seria…

Vo-vó.

 

Surgiram os primeiro passos

O primeiro chute

Fui goleiro, artilheiro

Astronauta e lutador de boxe

Como toda criança

Fui alpinista de estrelas

E enquanto você foi a corda

Eu fui acordando.

 

Do banco de trás

Eu fui aprendendo a pedir:

Biscoito, bala … o volante!

O volante? Sim, eu já posso fazer isso!

Foi um pulo.

O sapato apertando, o dente caindo

A canela esticando…

Será que você viu?

(A cortina de sua pálpebra não paralisa o tempo.)

Não viu.

 

E quando viu

Eu era um lugar na mesa

Um quarto vazio

E uma sirene de escola que nunca cessa.

 

Mas hoje estamos aqui

Diante do imenso quarto azul

Que você me ensinou a conhecer

Diante de estrelas infinitas

Escondidas por trás de sonhos

Que você me fez acreditar

Possíveis.

Obrigado, meu pai.

 

Texto originalmente publicado no blog Caneta, Lente e Pincel.

Receita de Ano Novo

Posted in Poesia on 30 dezembro, 2008 by David Cohen

Por Carlos Drummond de Andrade

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

Linha vermelha ¹

Posted in Poesia on 25 dezembro, 2008 by David Cohen

 

Seis da tarde

Trânsito intransitável

Vidros suspensos

Ambulantes em frenesi

Meninos malabaristas

Na corda-bamba

Ruídos entrecortados

Últimas notícias…

Um homem fora do carro

Olhares curiosos

O tempo inesgotável

Jornal de amanhã

Tumulto no acostamento

A mureta encurralante

Um cortejo estacionado

Sobre a via-funeral

Estampidos, pânico

A orquestra do medo dissimula

Famílias em alvoroço

Burburinho, desatino

A manobra por uma vida

Desconcertada…

Um corpo atravessado

Sirenes em errância

A alma devassada

Por uma linha vermelha

De sangue.

 

____________________ 

1 – A RJ-071, oficialmente denominada Via Expressa Presidente João Goulart e popularmente conhecida como Linha Vermelha é uma via expressa do estado do Rio de Janeiro, que liga os municípios do Rio de Janeiro e São João de Meriti, atravessando também o município de Duque de Caxias.

Por atravessar diversas áreas carentes, é atualmente conhecida pelos freqüentes atos de violência que ocorrem em seu entorno, visto ser margeada por aproximadamente 18 favelas, todas repletas de atividade criminosa do tráfico de drogas.

Epifania

Posted in Poesia on 2 dezembro, 2008 by David Cohen

Sol de manhã

Passarada parada

Barulho de urbanidade

Uma orquestra de bocejos

A espreguiçadeira sonolenta

E a lenta expressão do pernoite

Acordo

Sou digerido pelo despertador

Tento lembrar do último sonho

Mas a realidade freme, frenética…

O bule dá baforadas oníricas

E a mesa posta desde o jantar

Conserva seu jeito de eterno ontem

Tenho os olhos no teto

Meu rosto banha todo o quarto

Estático, estético

Faço menção de um movimento

E solidamente permaneço…

Sol de manhã

No batente do homem e da janela

A claridade se dissolve

O dia avança espasmódico

Um rapaz caminha na passarela

Desenhando em seus passos de hipérbole

A parábola da vida.

Engatilhado

Posted in Poesia on 19 novembro, 2008 by David Cohen

Longe e iluminado

Cintila o morro

Lânguidas luminárias

Correm por gatos silenciosos

Miam fagulham

Centenas, centelhas

Sem telhas e sem telhados

Dão voz a personagens esquecidos

 

Longe e iluminado

Cintila o morro

Degraus, degredos

De grados e degradados

Engradados de homens

Num balé sublimado

Se contorcem

Na coreografia da existência

 

Longe e iluminado

Cintilo e morro

Lírico, lógico

No replicar dos gatilhos

Miados algozes

Sonhos cortados

Uma vela se acende

Sobre um cortejo de lágrimas.